10/14/07

Da categoria: piadola fácil

"Merkel recebe Dalai Lama"


(ó Nuno pá. tsst.) Isto dos humoristas tugas se meterem em politiquices já está a cair no absurdo.

10/12/07

Coisas que não convém. Tratando-se do autocarro que nos vai transportar nos próximos 200 kms.

Ao entrar na gare, o veículo pesado parecia não acertar à primeira... nem à segunda... nem à terceira... no estacionamento em espinha. Esquisito. Bom... mas o pensamento circulava mais à volta do pequeno almoço que a Rede Expressos não serve às 07.00 da manhã. O delírio olfactivo do aroma matinal a café colidia com o cheiro frio a metal das grades, agora encerradas, e que se fazia sentir por todo o Terminal fantasma. Ninguém merece. Procurei então distrair-me dos ruídos viscerais e das 5 horas de viagem pela frente... ver dois condutores a tomar o seu lugar dentro do veículo até que causava uma certa impressão.

Um condutor para o outro: "Então... sabes o caminho?"

O mesmo condutor para o outro: "Vá ...agora põe uma quarta...agora quinta... vá, ACELERA. Olha para 'ela'. 'Ela' está a dizer-te o que quer!!Dá-lhe a oitava. "

A modos que antes de chegar a Setúbal já tinhamos batido com uma certa firmeza na portagem da via verde; e algures em Santiago do Cacém foi preciso recuar uns bons metros em marcha atrás dentro de um cruzamento. Parece que afinal era para ir em frente. O Capitão Nemo, entre aspas, logo se prestou a ir esbracejar lá para fora, conduzindo os avanços e recuos a partir de um ego entretanto já mais atrapalhado. Do interior da janela, ao ritmo dos solavancos do motor, os seus préstimos pareciam especialmente aflitos. Altura ideal para pôr os phones do mp3. Há coisas que é melhor nem ver. E a paisagem até Aljezur é bonita.

10/11/07

Vale sempre a pena recordar...

...aquele dia em que no Boteco todos se debatiam com a fome, engolindo as ementas e passando em mãos o cesto das carcaças. Uma senhora de ar boçal, displicente e de quem tem mais do que fazer na cozinha, apoiava a caneta no bloco aguardando instruções a qualquer momento: "Então o que é que vai ser?". Uma amiga nossa resolveu então apontar para as letras escritas a caneta bic e de ar tímido e educado perguntou:

- Hamburger especial no pão... O que é que isto leva?

Senhora de ar boçal, displicente. Mais do que fazer na cozinha:

- Filha...Leva Hamburger...e pão.

Amiga:

- Sim-sim. O hamburger normal certo? Mas o especial da casa leva o quê?

Senhora de ar boçal, displicente. Mais do que fazer na cozinha:

- ó Filha...leva hamburger e pão!!

Amiga:

- er...mas... repare...para além disso...cebola? queijo? bacon?...O que é o especial da casa...?

Senhora de ar boçal, displicente...yada-yada:

- Ó FILHA!!!... É HAMBURGER! É HAMBURGER E PÃAAO!!

Amiga:

- O_o ?! ... Seja. E uma cola.

10/10/07

Era dar-lhes uma coça

Lidar diariamente no trabalho com o lado podre das coisas também nos apodrece um bocadinho; é difícil evitar que o cheiro nauseabundo a dada altura não assombre o nariz... sobretudo porque não tive férias e faz-me falta o iodo. Desentope. Somos uma linha de embate, assim o chamam. Preciosismos à parte: é um filtro de toda a porcaria e miséria social que se agita neste país. Mas a problemática nuclear a que temos de atender é a Violência Doméstica.

[O texto é longo mas coragem. A bravura é sempre compensada em conhecimento. Neste blog pelo menos.]

Todos os dias temos descrições de agressão de revirar estômago, aquelas que lidas num jornal diário de má qualidade contam tanto para o nosso íntimo como uma estatística qualquer do INE. Já ouvi-las de viva voz é diferente. A gravidade atinge o seu pico ao saber que os agressores são muitas vezes (muitas mesmo) eles próprios elementos da Polícia de [segurança] pública e GNR, e que as vítimas são instrumentalizadas nas esquadras para atrasar as queixas o tempo suficiente até que desapareçam as escoriações. Dá que pensar que vivemos numa espiral de impunidades. Mas nada de novo certo?

Torna-se então ainda mais assustador abrir o jornal há uns dias e ler que as grandes cabeças do direito penal deste país resolvem agora baixar a mão às intenções violentas que não se traduzem em actos consequentes. Terão a noção das implicações desta decisão leviana para o problema específico da violência doméstica, entre outros? Três sopapos valentes ainda era pouco. Era dar-lhes uma coça de os deixar negros. Se até à data os agressores já estavam suficientemente à vontade com a lei -e é sabido que o faroeste é tal que eles próprios brincam com a impotência dos xerifes- então agora o risco é incalculável.

Pergunto-me para que servem estatísticas e saber que cerca de 80% das causas de morte das mulheres portuguesas entre os 25 e os 40 e tal anos decorre de violência doméstica. Oitenta por cento de mulheres em idade activa. Mata mais que uma doença oncológica ou qualquer acidente. Perdoem alguma imprecisão relativamente ao intervalo etário e a falta de referência ao estudo, mas anda muito perto disto asseguro-vos. A violência doméstica não é uma troca de chapadas mais forte entre dois adultos. A realidade é esta querido leitor: a violência doméstica aparece quase sempre colada à ameaça de morte. É uma escalada sem retorno muitas vezes acabando com a destruição última da vida da vítima, e outras com a morte do agressor num acto limite de sobrevivência.

O quadro da violência doméstica configura a agressão verbal e moral, a extorsão financeira, a violência sexual e os maus tratos físicos em geral. Por definição aplica-se a situações de violência entre pessoas que coabitem no mesmo espaço, pelo que envolve a mulher mas também o homem, o idoso e a criança. Certo, também há homens vítimas e são cada vez mais os que aparecem à tona, mas é indiscutível a proporção de vítimas no feminino, na população infantil e em indivíduos com handicaps e deficiências graves. Há coisas em que a tradição ainda persiste. É um golpe duro para uma pessoa optimista ter de admitir que em termos globais não mudámos assim tanto como se poderia julgar.

Esta violência envolve requintes de malvadez, isolamento psicológico e relacional da vítima, humilhação moral, instrumentos como paus e facas; há cintos que amarram pessoas à cama; queimaduras premeditadas com pontas acesas de cigarro; ameaças sob armas de fogo; estrangulamento; queimaduras corporais com substâncias químicas corrosivas e violência sexual para destituir a vítima de qualquer controle que ainda pudesse haver. Instila-se o terror nos filhos, não vá haver algum que se lembre de ser valente, na família, nos amigos (se ainda os houver) e até no animal de estimação. Frequentemente, como é sabido, vende-se uma imagem de vizinho perfeito e espalha-se aos sete ventos que a mulher é uma puta que consome tudo o que mexe nas imediações; e sabe Deus como neste país se adora a cultura da puta. Os homens adoram chamar as mulheres de putas, e as próprias mulheres adoram chamar as mulheres dos outros de putas. Estão reunidas as condições para a puta oficial continuar a sua actividade sem mais, e para que muitas desgraçadas continuem a levar uma puta de uma vida. Mesmo que não saia de casa sem ser para ir buscar os filhos à escola, ter deixado o emprego porque foi coagida a isso, não ter telemóvel ou sequer dinheiro na carteira, de certezinha que arranjará um tempinho para furar a vigilância e fazer uma asneirola algures. Que estas putas são macacas.

As vítimas continuam a verbalizar ter vergonha das queixas apesar de levarem pontapés na barriga já muito grávidas e frequentemente desculpabilizam os agressores atribuindo a coisa a uma "questão de nervos" ou a consumos aditivos, ainda que sejam elas quem recebe acompanhamento em psiquiatria com diagnósticos de depressão acentuada. Pergunto-me se haverá investigação relevante sobre o peso que representa para o Estado as despesas de saúde nestes agregados. Just a thought.

É lamentável que tentem escamotear o problema permitindo às vítimas a isenção das taxas moderadoras em vez de investir na prevenção e acompanhamento. Claro que a despesa perdoada não cobre um plano de prevenção. Um cobertor curto não chega para tapar os pés e a cabeça em simultâneo, mas caramba..é o princípio todo que está errado. É a mesma coisa que isentar os fumadores de pagar taxa moderadora à entrada das urgências de pneumologia em vez de investir na promoção de estilos de vida saudáveis e num tratamento de desabituação tabágica. "Que comparação tão tola... fumar é completamente diferente de levar na corneta". Não, não é. São ambos comportamentos auto-destrutivos em que o próprio tem a sua quota de responsabilidade (lá iremos mais à frente). Os comportamentos tem de ter consequências e feedback para que sejam afinados e corrigidos; e os exemplos tem de ser veiculados nas pequenas coisas. Se o cobertor é curto não vale mais tapar os pés e deixar o rosto de fora? Não é nas bases que se deve investir? Já que muitas vítimas parecem não se importar grandemente consigo pode ser que se lhe forem à carteira violentamente pensem duas vezes antes de permitir a um homem que este lhe desalinhe o queixo. É polémico-é polémico, bem sei. Mas sejamos coerentes, ou isso ou receitem 605 forte aos agressores. Viva a prescrição abusiva de fármacos. Ui... como me afastei. Já perdi o leitor por esta altura. Senhor leitor...? Iúu-úuu... Ah. ok. Obrigada.

Portanto, os vizinhos começavam agora a ganhar coragem para denunciar massivamente estes casos ainda que muitas vezes só porque o barulho é incomodativo e no outro dia há-que levantar às 07.00 da manhã. Parecendo que não, é chato. Mas ligar para quê? A verdade é que uma medida destas vai fazer com que a polícia já nem se dê ao trabalho de ir ao local, sendo que muitas vezes já não o faz. Claro que não é só por cá, os países anglo-saxónicos deparam-se com os mesmos problemas na sua polícia, daí a necessidade de haver um sentido de estratégia delineado e acordado entre os vários parceiros europeus. Neste país de Guardas-Serôdio é difícil a coisa endireitar por si. Recordo aqui a famosa frase do dito polícia da série amigos de Gaspar quando estes resolviam fazer tropelias: "Ó DA GUARDA! Ó DA GUARDA!... co'a breca... mas o guarda sou eu!". Diz muito.

Depois há outro aspecto...e voltando algumas ideias atrás...não se pode vitimizar as vítimas. É um erro fatal. A famosa interpretação "deve gostar de levar" é ridícula, mas é igualmente tacanho desresponsabilizar totalmente quem é agredido. Não fosse haver alvos não haveria ninguém para os agressores se entreterem a dançar a lambada. Não poucas vezes recebem apoios, são acolhidas em abrigos confidenciais longe dos agressores mas não largam o vínculo patológico. Esquecem todas as vezes que deram entrada nas urgências ensopadas em sangue com costelas partidas quando subitamente surgem promessas de reconciliação milagrosas. Voltam para casa e pimba, fazem mais um filho. O ciclo recomeça.

O serviço onde trabalho é apenas um dos que recebe estes casos a nível nacional mas todos os dias recebe centenas de denúncias de agressões e são cada vez mais. As campanhas de sensibilização que se fazem são anedóticas, ofensivas, e contraproducentes, motivo pelo qual aliás este texto não tem fotos. Não há uma estratégia a nível nacional de combate a este problema. A polícia peca ora por conivência ora por incapacidade de actuação, e o cerne do problema está num poder legislativo e executivo que são, neste campo, frouxos e portanto criminosos. E prossigo de dedo esticado. A articulação de serviços é má e não há gabinetes eficazes que façam a reintegração profissional, psicológica e social das vítimas deixando-as muitas vezes sem outra solução que não seja voltar para os agressores. Xaran! E assim se matam mulheres neste país. O mesmo país onde o desaparecimento de uma menina consegue mobilizar as atenções de um mundo, e onde (consta!) figuras de elevada responsabilidade, com fatos engomados e carros do estado, saem a meio da noite qual abutres para foder meninos, que já de si tinham uma vida fodida quanto baste... aparentemente sem que mais de uma dúzia de pessoas se interesse de facto só neles. Há dias em que ser portuguesa me faz cá uma destas azias.