[Perlóim-perlóim]
"O faduncho do malandro borracho"
Eeeeeeeeee-aaaaaaAAi.
[Perlóim.]
Ainda-lá-vinhas-desajeitado
de sono mal acordado
Ainda-entortavas-a-calçada-meio-ressacado
Já meu peito pulsava
este fadinho apaixonado.
É sempre assim
Ainda o dia não rebentou
Já antecipo ao longe a chatice
E o caldo que entornou
[Aaaaai amor.Cuidado a atravessar essa estrada].
E de dares meu beijo, nada
Que passo por antiquada
De não confessar a timidez
Pá próxima saia como saia
Levas-co' estes-lábios-de-uma-vez.
[E se quiseres chama-me de danada.
Mas com essa idade tão avançada não-perdes-pela-demora.]
Lembro bem o dia do primeiro beijo
Perguntaste-o-que-fazia-quem-eu-era-
"que-mal-te-vejo"e que estavas com o alemão
Respondi, se gostasses mais de mim [bis]
eu cá não me importava, não.
Aaaaaaaai meu malandro.
com-o-teu-jeitinho-desalinhado
Teu-parco-cabelo-desgrenhado
Me-deste-cabo-do-coração
E nunca mais eu me vi endireitar
Para outra direcçãaaao.
[Endireita a dentadura amori, olha as pessoas.]
Podias até chamar-me torta
E mentiras assim.
Para me entortar contigo
Até que endireitava
E-podes-crer-até-soava
a-doce-castigo-para-mim.
Que para mal da minha boca
És o magano que desatina
Só perto dos teus lábios
ou da guitarra aqui do Zé
é que esta magana afina.
[Anda lá com essa guitarra Zé]
(remate de conversa com trejeito de pescoço. Pausa pá guitarrada)
[Ora vamos lá a isto...]
E se essas outras mulheres
Perguntarem por ti
digo que és assim-assim
Mulher é bicho invejoso.
Mesmo com essa tua idade
Não se saiba o que esse falar dengoso
faz a uma mulher decente
com tanto jeito
O que fez a este meu peito.
Não gostar-te é cá uma luta
Ora rica ora enchuta
Mas o que eu gosto de ti.
Rosadinho, suado, aéreo
Tão português.
Que não sabe ninguém
o teu jeito desajeitado
é-como-o-teu-parco-cabelo-frisado:
És viril, nobre, e forte
Lá à tua maneira, enfim.
Meu Deus, a sorte
De-emcabestar-com-um-velho-assim.
(Sobem as guitarras a antecipar o clímax)
Que ele é malandro, é sim senhora.
mas não é por mal
Só gosta de beber seu copito
Mais-uns-quantos-copos-de-três-e-tal.
Fia-se no ditado
que Deus lhe põe a mão por baixo
E desde então leva tudo fiado
Quando vem a rebolar lá do tasco.
Mas no fundo, no fundo
No fuuuuuu-u-undo
ele é homem frágil, coração mole
que na vida só anda direito
quando se equilibra no meu peito.
E a arritmia daquele coração
só sossega a descansar no meu
E malandra que o queira logo a ponho a andar
Que este malandro até já está a ressonar
Mas o malandro borracho é meeeeeeu!
Perlóim-Perlóim!


Inspirado numa noite de fados. Ela trazia a mouraria à cintura, e os modos de falar da Alfama que a adoptou. Era alta, loura, madura jovem e de grande peito maternal. Abria a boca que era uma agressão à alma. Ele trazia na voz, e no equilíbrio trôpego, o cantar de quem já cantou bem, noutros tempos talvez. Jocosos não eram seus fados, mas sim o seu cenário. E enquanto ele cantava, encantando as mesas com o fado da ‘manhosa’, ela lançava-lhe piropos apaixonados de quem ameaçava levá-lo para casa nessa noite. E o que é certo é que eles saíram primeiro do restaurante. Os doidos. Nós ficámos agarrados às guitarras. Agora por falar nisso... quem é que terá fechado o restaurante nessa noite?....Hum.










