12/26/06

Reflexões mais ou menos sérias em época de festas

Há qualquer coisa de extraordinariamente humano que emerge e contagia o cenário quando se observa os outros, sobretudo quando estes não têm consciência disso. Necessariamente a curiosidade leva-me a retirar os olhos e o mundo daqueles que mais se destacam à mesa e, sem que o controle, puxam-me até aos lugares sentados dos mais calados. Confesso-me, gosto de observar aquilo que nem sempre é evidente a olho nú; e a humanidade às vezes é gritante no silêncio. Quando alguém, não sabendo que é olhado, se comporta de acordo consigo apenas, veêm-se vísceras e brilhos inéditos. Vemos expressões que desde o início do mundo existiram possivelmente uma única vez. E só por isso todas as pessoas são estupidamente belas... pela sua individualidade. Mais ainda quando não fazem um único esforço para o ser.
Não sei se será alguma tara privada mas sempre achei que os outros são particularmente bonitos e interessantes quando abatidos pelo cansaço, e sempre me encontrei deslumbrada com o belo que há numa expressão triste ... quando o desinvestimento no envelope orgânico perde sentido, quando não apetece simplesmente, quando não há energia sequer para tentar corresponder a nada. Quando há apenas cansaço, olheiras, cabelos desalinhados e roupa que não condiz (seja por tristeza ou cansaço) há uma lógica interna maior que eclode, que vinga sobre mecanismos de defesa que, em circunstâncias normais, estão mais vigilantes e treinados para a possibilidade da censura externa. As defesas baixam, e apesar de tão mais quietos, é-se mais eu. Não as palavras, mas os conteúdos saem mais verdadeiros, e quem está na posição privilegiada de poder olhar faz sempre uma nova descoberta acerca das individualidades alheias. Há também uma graça natural no estado de cansaço. Há um humor intrínseco a esse estado, a esse e a todos os outros em que não há sequer a noção de que se está a ser 'visto'; em que não há consciência ou simplesmente há um borrifar-se absoluto para esse pormenor. É normalmente nesses momentos que as crianças aterram o sono violentamente sobre a mesa dos adultos, ou enfiam avidamente o dedo no nariz e o limpam com a minúcia de um espírito cientista. Malandrice que, a ser espontânea, é sempre uma ternura não fossem os achados arqueológicos tão feínhos. Mas quem consegue censurar movimento tão genuíno de limpeza e reorganização do próprio corpo? É giro e dá-se um lencinho. E pronto, fica tudo bem. Também por isso talvez haja um encanto tão natural nas crianças e na vida selvagem, elementos revestidos de um sentido de humor tão próprio- coisas que fazem reagir o nosso inconsciente colectivo mais profundo pela honestidade que trazem ao de cima. Porque fazem revolver entre os nossos tecidos os conteúdos mais essenciais. Isso também existe à mesa de natal, quanto a mim, entre os mais calados, que são aqueles que frequentemente norteiam a minha atenção para aquilo que é menos perecível; porque marcam uma fronteira óbvia entre os discursos orais saturados de referências daquele ano, daquele mês em particular, e o discurso daquilo que (não sendo tangível) é tanta vez bem mais humano. Anúncios em voga, programas na moda, acidentes políticos recentes, anedotas de contexto, os vinhos- conversas tão legítimas e potencialmente prazerosas como outra qualquer. Mas. Mas a minha prima este ano estava doente e ainda mais calada que o habitual. Olhava pesarosa para o queijo que não podia comer devido a uma cólica renal. Descobri que a minha prima gosta bem mais de queijo do que eu pensava, e que quando fica tristonha os olhos aclaram e se assemelham ainda mais a duas grandes amêndoas. Conheço aqueles olhos desde que eram bem pequeninos, e ela cabia inteira no meu colo, mas só agora sei com exactidão todos os traços que transitam a sua expressão de um olhar desapontado para um outro iluminado, quando a minha mãe lhe pôs a tarte de queijo Fetta no prato e a sossegou: " Não há-de ser por este bocadinho". Conheço agora a tal expressão de passagem de um estado de humor para o outro. Acho que esta época de festas é cada vez mais isto do que qualquer outra coisa: descobrir as dinâmicas de humanidade que geram alegria naqueles que gostamos, e sempre que possível assegurar uma fatia dela no seu prato. Se isso incluir um pedaço de queijo, ainda melhor.



Umas boas festas para todos os que por aqui passam!

12/18/06

Alô?...Alô?...

Numa linha telefónica de apoio a situações de emergência:


- ... Compreendo minha senhora. E, está a ligar-nos de onde?

- Da casa de banho...

- hum... Talvez não me tenha feito entender...

- Do meu telemóvel. Estou a ligar do meu telemóvel.

- Referia-me à cidade, distrito. Liga-nos de que zona do país?

- Não não. É de Portugal mesmo.

- Minha senhora, procure ouvir-me. Quando tem de ir ao Hospital onde vai?

- Ter com o médico, claro.

- (... Cof cof...desisto.)... D. Fernanda não é?! Se me der um momento vamos transferir já-já a sua chamada.



Contacto seguinte:



- Boa tarde, em que posso ser útil?

- Olhe! Não pode pôr aquela musiquinha outra vez?

- Música... ?!

- Sim sim. Aquela música sem letra que estava a dar antes da menina começar a falar...Não pode pôr outra vez? É que a minha filha gostou muito.

- (...)

- Tou-tou?!

- ... É Vivaldi minha senhora. Julgo que não terá dificuldade em encontrar numa Fnac.

- Tá. Obrigada!!!... Tit-Tit-Tit-Tit-Tit-Tit.










12/12/06

Deus Nosso Senhor deve andar por aí, mas andamos desencontrados. Talvez seja melhor Ele me deixar um post-it a agendar encontro.

Ando numa crise espiritual, há cerca de 15 anos. Ainda que conscientemente afastada e saudavelmente próxima (quanto a mim) por toda a parte se articulam sinais como me culpabilizando do meu "afastamento" da fé; por ter optado por namorariscar em vez de seguir avante com o meu projecto inicial de ser uma noiva de cristo e por ter feito uma guerra sem precedentes para trocar o colégio de freiras pelo liceu da minha zona. Por todo o lado no meu quarto se espalham artigos de merchandising da religião católica, estrategicamente posicionados pela minha avó, para que esbarre com eles com toda a frontalidade e sem hipótese de fuga. Geralmente chego mesmo a tropeçar e caio. Sou um bocado desastrada. Antes fossem t-shirts (uma coisa que por acaso anda a faltar no meu armário) mas a oferta mais recente foi um missal, o que permanece um mistério sinuoso à minha pessoa dado que não vou à missa, e cantar só mesmo no banho mas nada a ver com letras iluminadas e elevadas. O que me apraz cantarolar são coisas pecaminosas barra realistas para que fique arrumada essa parte logo ao começar do dia. Gosto particularmente de trautear o refrão atrevido ' I wanna make a mistake/gonna do it on purpose' da Fiona Apple ou qualquer coisa altamente bucólica que reflicta o meu pesar em levantar o cú da cama cedo. De repente, esta minha imagem evocou-me a cena inicial do chuveiro matinal do Kevin Spacey em 'A beleza americana', mas em fêmea e sem a parte da masturbação. Coisa curiosa, esta.
Bom, o missal veio juntar-se a toda uma panóplia de objectos de ligação com o divino, instrumentos de doutrinação da minha querida avó, e cuja entrada no meu quarto goza da conspiração da minha progenitora, que se denuncia sempre que todos os anos profere aquela frase: "Então filhota?..Queres ir comigo e com a avó à missa do galo?"... "Comigo e com a avó", atentem. Pacto denunciado. É geralmente nessa altura que, nos últimos três anos, já estou de casaco e mala ao ombro fechando a porta atrás de mim, mais que preparada para seguir para o Lux; com o consentimento silencioso (ou nem tanto) dos homens da família que já ressonam em frente à película que corre distraída no canal 1, alheia ao facto de ter perdido a audiência logo ao primeiro bloco publicitário.
Não pensem contudo, que o Natal em família não é para mim uma necessidade absoluta e que não valorizo de modo muito sentido o ritual do jantar da consoada, as piadas à mesa, e o calor que isso emana. Sinto-o em todos os poros. Contudo, os primeiros roncos e as mantas de xadrez enroladas em pernas de gente adormecida e gatos ronronantes, marcam o sinal sereno da hora da retirada. Necessariamente, esse foi um momento já devidamente apreciado nessa tarde, a seguir ao almoço violento composto por um qualquer perú recheado, bem regado com um vinho da região demarcada do Douro. Sigo, portanto, e com uma sensação quentinha.
Mas falava de pactos antes de falar do Natal. Falava de objectos como o tal missal, que carinhosamente guardo numa caixinha onde o tempo foi acumulando por camadas coisas como a Biografia do Santo Papa, a História da Santa Rita de Cássia, A bíblia (edição revista e melhorada), água benta e crucifixos de toda a ordem e feitio. Faltaria um molhinho de alhos, e teria de perguntar à minha generosa avó o que julga ela que eu faço até altas horas da noite na rua, para descansar as preocupações da pobrezinha.
Mas os exemplos de tentativa de doutrinação não se esgotam em casa... Nãaaaaao! Ainda que agora numa lógica bem diferente, certo é que assim que atrevo o nariz fora da porta confronto-me com um salão de testemunhas de jeová, com uma casa de culto da IURDE, duas Igrejas baptistas evangélicas não-sei-exactamente-do-quê, uma loja de artigos de mães e pais de santos, yemanjás e cú-rrú-cú-cús do género, e consoante os dias da semana cruzo-me com aqueles mocinhos muito engomados que se chamam todos Elder. O meu momento de descanso é nos transportes...quando não tenho azar, porque aparentemente sou um íman para taxistas jeovás (comunistas também, mas com esses pelo menos dá para conversar sobre boa música). Chegada ao destino, geralmente sou atropelada violentamente por aquela gente das revistinhas, que maliciosamente se movimenta aos pares para fazer duras placagens aos jovens estudantes que por ali passam já de si carregados com malas, livros e portátil. No outro dia, já de regresso a casa, estranhava eu o facto de há muito não ser abordada na rua por estas pessoas, e sujeita a conversas que acabam sempre mal, quando ao sentar o meu real rabiosque na paragem...

- A menina permite-me que lhe fale de amor..?
- ai ai ai. Agora até nas paragens?!...kinky!!! Há uns tempos já fui apalpada por uma de vocês e confesso que não achei piadinha nenhuma à brincadeira. Esta história de ir toda a gente ensardinhada no autocarro...
- ...porque o reino do Senhor...
- Ah!...
- Não quer ler? São as palavras que ele nos deixou.
- Minha senhora, não me leve a mal mas eu tenho formação cristã.
- CRISTÃ? Mas eles nem sabem dizer o verdadeiro nome do Deus...
- Pois, não sei. Eu cá normalmente trato-o por tu. Sei que ele não me leva a mal. Nós dávamo-nos bastante quando eu era miúda...
- Essa gente nem sabe dizer o que nos espera no reino dos céus!!!
- ...mas acha MESMO que alguém sabe?
- O nosso Deus sabe!!!!!... ele diz-nos que os pecadores serão castigados pelo fogo -agitando um dedo perdido algures entre a argumentação pré-formatada e as ameaças aos ouvintes desinteressados- Os pecadores serão castigados e os bons de espírito serão premiados!!!
- Sim minha senhora. DEUS A OUÇA!
- Irra, que estas paragens novas...chove mais cá dentro que lá fora- Assinala-me divertido um senhor de alguma idade, afastando sem maldade aquele assunto.

- É verdade. Só são bonitas para pôr publicidade, não é?- Respondi, devolvendo a boa disposição.
- Já lá vem. Adeus menina. Um bom natal.
- Obrigada, um bom natal também para si.
- Fique com Deus.
- (sorriso) Mmmm. Também...





12/4/06

Já todos têm folha... podem começar o exaaaaame!

Hum... Deixa cá ver o que é estes gajos se lembraram desta vez..."Leia as questões com atenção."..Blá-blá..."descreva todos os raciocínios... apresente todos os cálculos necessários" ... yada-yada... "exame com duas páginas... boa sorte!"...obrigadinha, uns queridos...Ora: "Desenvolveu-se um estudo com o propósito de verificar a possível relação entre a habilidade cognitiva e a área de conhecimento"...hum..."foram seleccionados aleatoriamente alunos dos cursos de Psicologia e matemática"... mau!!..."foi calculado o rendimento médio geral avaliado numa escala de 0-10" ... deixa cá ver os gráficos...hum...olha-olha... estão bem mais bonitinhos que o exame do ano passado, sim senhor. Deixa cá ajeitar os óculos. Isto serão outputs do SPSS?... Olha gostei! ...portanto, "foi ainda perguntado a cada aluno quando iniciou e após dois anos de frequentar o curso, quais as expectativas de encontrar um bom emprego"...Ah! Tenham dó...Não se faaaz. Deixa cá ver a última pergunta...Mmmmm....mais para baixo..."7. Os investigadores consideram que, quando os alunos estão a frequentar o curso as suas expectativas de encontrar um bom emprego são inferiores às expectativas quando iniciam o curso. Verifique se esta suposição é verdadeira, assumindo um alfa de 0.005??!!!!.." Tipo... DUH-UH!!... A-LÔOO!?

- Psst... Já viste bem o ridículo destas perguntas?...
- Shiuu! Vira-te prá frente pra me tapares as cábulas.

É por estas e por outras que sempre me senti uma inadaptada no sistema de ensino.